segunda-feira, 9 de maio de 2011

Onze espinhos de Pequi na garganta

Por Valdenberg Trindade

(bons motivos para ficar triste em Rio de Contas)



1 – A destruição da Nega de Zofir

O mais criativo símbolo de Rio de Contas foi vandalizado e destruído. Ficou por isso mesmo!


2 – A utilização da Casa de Câmara e Cadeia para atividades judiciárias

Há décadas a mais imponente construção da arquitetura histórica riocontense serve às atividades forenses, quando poderia funcionar como centro de cultura e apoio turístico.


3 – A retirada da feira do centro da cidade

A antiga feira livre, então situada no centro da cidade, tinha ares cinematográficos e fundia a arquitetura barroca ao charmoso burburinho de feirantes e compradores. Infelizmente foi transferida para uma pirambeira.


4 – A decadência do mais rico artesanato do interior baiano

Rio de Contas foi o mais importante centro artesanal do interior da Bahia e a sua produção chegava até mesmo a outros países. Hoje, sem um amparo oficial consistente, o artesanato local rende-se ao lucro rápido e fácil. São cada vez mais comuns as peças de qualidade reprovável.

Técnicas primitivas, a exemplo do artesanato em metais e couro para montarias e da ourivesaria estão desaparecendo. Já a cerâmica de Tõe de Cassiana ficou na lembrança dos moradores mais antigos e não teve continuidade.


5 – A descaracterização da Praça da Matriz Esaú Pinto e a destruição do coreto

A Praça Esaú Pinto (antiga Praça Senador Tanajura) foi destruída, dando lugar a uma bizarrice arquitetônica, que mistura arremedos da art nouveau e do neoclássico a uma penca de esquisitices. Na verdade, o traçado original da praça resumia-se a um grande campo gramado, orlado por uma calçada. Até mesmo o velho coreto foi ao chão (não foi respeitada a sua importância cultural como centro agregador de atividades artísticas).


6 – A Barragem Luiz Vieira

Este elefante branco, também denominado Barragem do Brumado, é um verdadeiro monumento ao nada. O período da sua construção massacrou a cultura e o meio ambiente em Rio da Contas. Até hoje não tem qualquer utilidade para o município e o seu aspecto é escandalosamente desolador.


7 – Os ônibus da Novo Horizonte (e a “baldeação”!)

Os péssimos serviços desta empresa viraram uma sombria tradição para moradores da região e para turistas que se arriscam a utilizá-la. Quem nunca passou pelo dissabor de fazer uma amaldiçoada “baldeação”?


8 – Destruição dos balneários do Açude, do Bambu, da Cachoeirinha e da Curriola

Destes antigos points do Rio Brumado, alguns foram destruídos e outros foram transformados em fétidos depósitos de lama. O descaso histórico de vários gestores, os esgotos, a destruição da mata ciliar e o assoreamento provocado pela Barragem do Brumado destruíram os ótimos balneários que tanto serviram a moradores e a visitantes.


9 – O sumiço da Jegada

A Jegada (ou Jecada) é um grupo folclórico de raízes negras que utiliza flautas e tambores para executar um ritmo forte e original. É a mais rica expressão musical de Rio de Contas.

Talvez por falta de apoio oficial, a Jegada perdeu visibilidade, privando riocontenses e turistas de tão importante manifestação folclórica.


10 – A descaracterização do carnaval

O Carnaval riocontense já foi um dos mais originais da Bahia. Hoje, interesses políticos e comerciais transformam a festa em uma tosca cópia em miniatura do Carnaval de Salvador. A exemplo dos chorrós e das bandas de sopro, várias tradições estão sendo descaracterizadas, dando lugar a uma verdadeira “Disneylândia” para beberrões vindos de cidades próximas.


11 – A extinção cultural da Panelada

O bairro da Panelada, núcleo originário de antigos habitantes indígenas, historicamente sempre foi motivo de discriminação, isolando-se literalmente como um gueto. Hoje, apesar de melhorias urbanísticas, a Panelada ainda é desprezada e a sua importância antropológica não foi sequer aferida. A sua tradição oral está fadada ao desaparecimento.

Valdenberg - Designer, cartunista, artista plástico e pesquisador cultural.


3 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns pelos tópicos.
Eu também tenho muitos motivos para chorar por nossa cidade... Explicarei aqui um dia. Sugiro que abra esta discussão. Por enquanto, parabenizo pelas excelentes matérias aqui expostas.

Orlando disse...

Secretario de turismo não faz nada pelo incentivo do turismo em rio de contas
Já se passaram dois anos e alguns meses e o secretario de turismo não se faz nada por nossa cidade onde se deixa o acumulo de lixo nos principais pontos o crescimento do mato só se faz cobra no fraga nos feriados prolongados e carnaval o dinheiro não sei nem para onde vai com tudo isto e um abi urdo a incapacidade e a falta de criatividade onde poderia fazer alguma coisa para atrair turistas parta nossa cidade como uma noite cultural só acha de pegar pulga quando encontra algum projeto tipo galope e outros que foi um evento para alguns da cociedade que si diz da burguesia
E humilhante isto onde se nada se acontece orlando

noedirc@gmail.com disse...

Berg, por que sua lucidez não contagia a administração da cidade?
Parabéns por suas postulações tão claras, de tudo que nos entristece em nossa ainda tão linda cidade. Ai sodade!....